Zuvegi notas de oficina sobre papel de parede impresso à mão

Papel de parede impresso à mão, do rolo em branco à junta na parede

Muitos blocos de madeira gravados à mão, com rosetas, espirais e motivos vegetais, espalhados sobre uma superfície vermelha

Blocos de madeira gravados em relevo. Cada motivo corresponde a uma cor e a uma posição dentro do raporte. Imagem ilustrativa de banco de imagens.

O Zuvegi reúne, num só lugar, o que acontece numa oficina de impressão manual de papel de parede: preparar o papel, desenhar a repetição, gravar blocos, misturar tintas, imprimir camada a camada, secar, enrolar e, por fim, colar na parede.

Os textos seguem a ordem real do trabalho. Cada secção pode ser lida isoladamente, mas as decisões de uma etapa condicionam quase sempre a seguinte.

01 — Papel e fundo

Preparar o papel e dar-lhe fundo

Tudo começa com o suporte. Para impressão manual usa-se normalmente papel em rolo com gramagem média, suficientemente encorpado para aguentar a humidade da tinta sem enrugar em excesso, mas flexível o bastante para ser enrolado e colado. Um papel demasiado fino ondula e rasga ao passar a cola; um papel muito rígido resiste a assentar em paredes com pequenas irregularidades.

Antes de qualquer desenho, o papel recebe um fundo: uma camada uniforme de tinta, geralmente de cola, que define a cor de base e fecha os poros. O fundo aplica-se com trincha larga em passagens longas e sobrepostas, no sentido do comprimento do rolo, e depois alisa-se com uma escova macia para apagar as marcas. É esta camada que dá ao papel impresso à mão aquele aspeto mate e ligeiramente aveludado.

O fundo tem de secar por completo antes da primeira impressão. Um fundo ainda húmido absorve a tinta do bloco de forma desigual e deixa manchas que não se corrigem depois.

Antes de dar fundo, confirmar

  • O rolo está esticado sobre a mesa, sem vincos, e fixo nas pontas.
  • A tinta de fundo foi coada e está homogénea, sem grumos.
  • Há comprimento de mesa suficiente para trabalhar o troço inteiro sem parar a meio.
  • O espaço de secagem está livre e protegido de poeiras.
  • Foi guardada uma amostra do fundo para comparar lotes seguintes.
02 — Repetição

O raporte e o cálculo da repetição do desenho

O raporte é a unidade mínima do desenho que, repetida, cobre toda a superfície sem costuras visíveis. Num papel de parede interessa em duas direções: ao longo do rolo, onde o bloco é carimbado vezes seguidas, e de faixa para faixa, onde o desenho tem de continuar quando duas tiras se encontram na parede.

Por isso a largura do raporte deve dividir a largura útil do papel em partes inteiras. Se o rolo tem 52 cm de largura útil, um desenho com 26 cm ou 52 cm de largura encaixa; um de 30 cm obriga a cortar motivos a meio na junta. A altura, por seu lado, determina quanto papel se perde ao alinhar tiras na parede.

Tipos de repetição mais usados
TipoComo se comportaNa parede
DiretaO motivo repete-se à mesma altura em faixas vizinhas.Alinhamento simples; desperdício igual à altura do raporte, no máximo.
Desfasada a meioCada faixa começa meio raporte abaixo da anterior.Ritmo mais solto e menos “em grelha”; exige atenção redobrada ao marcar as tiras.
LivreDesenho sem correspondência entre faixas, como riscas ou texturas.Colocação rápida e quase sem perdas.

Um cálculo passo a passo

  1. Medir a largura útil do papel, descontando margens que venham a ser aparadas.
  2. Escolher uma largura de raporte que divida essa medida em partes inteiras.
  3. Desenhar o motivo dentro desse retângulo, verificando as continuidades nas quatro arestas.
  4. Testar a repetição em papel de rascunho: pelo menos dois raportes em altura e duas faixas lado a lado.
  5. Só então transferir o desenho para os blocos, um por cor.
03 — Matrizes

Blocos de madeira gravados e moldes vazados

O bloco de madeira é a matriz clássica. Numa placa de madeira dura e estável, de veio fechado, grava-se em relevo a parte do desenho que corresponde a uma cor; o resto é rebaixado. Blocos grandes são muitas vezes feitos em camadas coladas com o veio cruzado, para não empenarem com a humidade da tinta. Zonas largas de cor podem receber um enchimento de feltro, que retém melhor a tinta e dá uma mancha mais regular.

O molde vazado, ou estêncil, é a alternativa mais leve: uma folha de cartão encerado, acetato ou metal fino, recortada nas zonas por onde a tinta deve passar. Aplica-se a cor com trincha de pelo curto ou boneca, em batidas verticais, para a tinta não escorrer por baixo das arestas. Os moldes prestam-se bem a manchas planas e a cores de fundo parciais; os blocos dão linhas mais nítidas e aquele relevo mínimo da tinta carimbada.

Em ambos os casos, todas as matrizes do mesmo desenho partilham o mesmo formato exterior e as mesmas marcas de registo nos cantos. Essa disciplina é o que permite, mais tarde, encaixar cada cor no lugar certo.

Cuidados com as matrizes

  • Lavar os blocos logo após cada sessão, antes que a tinta endureça nos entalhes.
  • Secar os blocos deitados, longe de fontes de calor diretas, para evitar fendas.
  • Guardar os moldes planos, entre folhas de papel, sem dobrar as pontes finas.
  • Identificar no verso de cada matriz a cor e a ordem de impressão.
04 — Tintas

Tintas de cola e têmpera

A tinta de cola é a mais associada ao papel de parede tradicional. Resulta de uma carga branca, como o cré, misturada com pigmento e um aglutinante de cola animal ou vegetal dissolvida em água morna. O resultado é uma cor mate, densa e com excelente cobertura, que seca depressa e se deixa sobrepor sem grandes dificuldades.

A têmpera, aqui entendida no sentido amplo de tinta aquosa com aglutinante proteico ou emulsionado, oferece cores um pouco mais saturadas e uma película mais resistente ao toque. É útil para os tons escuros finais, que precisam de firmeza, e para detalhes em que a tinta de cola ficaria demasiado pastosa.

A consistência decide a qualidade da impressão. Uma tinta demasiado líquida escorre pelos lados do relevo e borra o contorno; uma tinta demasiado espessa não se transfere por inteiro e deixa falhas. Na prática, carrega-se a almofada de tinta, bate-se o bloco sobre ela e faz-se uma prova num retalho antes de cada série.

Como as tintas aquosas clareiam ao secar, a cor deve ser avaliada sempre numa amostra seca, nunca na lata. Registar as proporções de cada mistura é a única forma fiável de repetir um tom noutro dia.

Uma pessoa inclinada sobre uma mesa comprida pressiona um bloco de madeira contra um tecido azul já marcado com motivos circulares brancos
O gesto da impressão com bloco: pousar, pressionar e levantar a direito. Aqui sobre tecido; no papel, o movimento é o mesmo. Imagem ilustrativa de banco de imagens.
05 — Camadas

Imprimir por camadas, do claro para o escuro

Um papel de várias cores imprime-se cor a cor, percorrendo todo o comprimento do rolo com o mesmo bloco antes de passar ao seguinte. A ordem habitual vai dos tons mais claros para os mais escuros: as cores escuras cobrem pequenas imperfeições das anteriores e fecham os contornos.

Cada camada precisa de secar antes da seguinte. Sobrepor tinta húmida a tinta húmida levanta a camada de baixo e mistura as cores no próprio papel.

Uma sequência típica

  1. Fundo, já seco e verificado.
  2. Manchas claras e grandes superfícies de cor.
  3. Tons médios, que dão volume ao motivo.
  4. Contornos e detalhes escuros, por último.
06 — Registo

Registo pelas marcas e desvio tolerável

Registo é o encaixe de cada cor no sítio exato em relação às outras. Consegue-se com marcas: pontos deixados pelos pinos do primeiro bloco, pequenas cruzes desenhadas na margem ou uma régua de referência presa ao longo da mesa. Em cada pancada, o impressor faz coincidir os pinos ou os cantos do bloco com essas marcas antes de pressionar.

Nenhuma impressão manual é perfeita, e isso faz parte do seu caráter. A questão é saber que desvio é aceitável. Como regra de oficina, um desvio de fração de milímetro não se vê à distância a que se olha para uma parede; desvios mais largos começam a notar-se como halos claros ou sobreposições escuras, sobretudo nos contornos finos.

Verificar a cada troço

  • As marcas de registo continuam visíveis e não foram cobertas por tinta.
  • O papel não se deslocou na mesa desde a camada anterior.
  • O desvio, se existe, é constante ou vai aumentando ao longo do rolo.
  • A junção entre pancadas consecutivas não deixa faixas nem falhas.

Um desvio que cresce progressivamente indica quase sempre que o papel dilatou com a humidade. Nesse caso, é preferível parar, deixar secar e retomar do que tentar compensar a olho.

07 — Secagem

Secar os troços ao ar

Depois de cada camada, o papel impresso precisa de secar sem ser tocado. Nas oficinas tradicionais, os troços eram suspensos em varas junto ao teto, dobrados em ziguezague, de modo a ocupar pouco chão e a deixar o ar circular pelas duas faces.

A secagem ao ar, lenta e uniforme, é preferível a fontes de calor. Calor direto seca a superfície antes do interior, faz o papel encolher de forma irregular e pode estalar as tintas de cola. Correntes fortes também não ajudam: levantam poeira e agitam o papel contra as varas.

  • Espaço ventilado, sem sol direto sobre as folhas.
  • Varas ou fios limpos, sem arestas que marquem o papel.
  • Distância suficiente entre troços para não se tocarem.
  • Verificação ao toque apenas numa margem, nunca na zona impressa.
08 — Rolos

Enrolar, identificar e guardar os rolos

Quando todas as camadas estão secas, o papel é aparado se necessário e enrolado com a face impressa para dentro, de forma firme mas sem apertar, para não vincar nem marcar a tinta. Um tubo de cartão no centro evita que o rolo se achate.

Cada rolo deve ficar identificado: desenho, combinação de cores, lote de impressão e sentido de colocação. Rolos de lotes diferentes podem ter pequenas variações de tom, por isso numa mesma divisão convém usar apenas um lote.

Para guardar, escolher um local seco, fresco e escuro, com os rolos deitados na horizontal ou apoiados nas pontas, envolvidos em papel sem ácido. Plásticos fechados retêm humidade e não são boa ideia para períodos longos.

09 — Parede

Colar na parede e cortar as juntas

A parede deve estar seca, lisa, limpa e firme. Tinta a descascar, fissuras e manchas de humidade aparecem sempre através do papel. Em paredes muito absorventes, uma demão prévia de cola diluída ou de primário uniformiza a absorção e facilita o ajuste das tiras.

O papel impresso com tintas de cola é sensível à água, por isso a cola deve ser aplicada com cuidado no verso, sem transbordar para a face. Depois de encolada, a tira repousa dobrada sobre si própria alguns minutos para amolecer por igual; saltar este passo provoca bolhas que surgem já na parede.

Da primeira tira à última junta

  1. Traçar uma vertical com fio de prumo ou nível; nenhuma parede é perfeitamente a direito.
  2. Cortar as tiras com folga de alguns centímetros em cima e em baixo, respeitando o raporte.
  3. Encolar o verso, dobrar e deixar repousar.
  4. Assentar a tira pela vertical e alisar do centro para as bordas com escova macia.
  5. Encostar a tira seguinte fazendo coincidir o desenho.
  6. Cortar as juntas e os excessos com lâmina nova e régua, trocando a lâmina com frequência.

Nas juntas, os papéis de margem larga podem ser colocados com ligeira sobreposição e depois cortados de uma só vez através das duas camadas, retirando as tiras soltas. O resultado é uma junta rente, sem sobreposição nem frincha, e com o desenho contínuo.

10 — Contacto

Escrever ao Zuvegi

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